Em uma eleição marcada pelo retorno da democracia, pelo confronto entre duas grandes forças políticas e por relatos controversos sobre os bastidores da campanha, Esperidião Amin venceu Jaison Barreto em uma das disputas mais acirradas da história catarinense.
Por PortalJaguaruna.com | Memória política de Santa Catarina
Em 15 de novembro de 1982, os catarinenses foram às urnas para escolher diretamente o governador do Estado, algo que não acontecia havia 17 anos. O resultado transformou aquela eleição em um dos capítulos mais emblemáticos da política de Santa Catarina: Esperidião Amin, do Partido Democrático Social (PDS), venceu Jaison Barreto, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), por uma diferença de apenas 12.650 votos.
A disputa foi tão apertada que cada região, cada município e cada grupo político ganharam importância na contagem final. Amin terminou com 838.150 votos, enquanto Jaison recebeu 825.500. A diferença representou menos de um ponto percentual na distribuição apresentada entre os candidatos mais votados.
Mas aquela eleição não foi apenas uma competição entre dois políticos. Foi também um retrato de um Brasil que começava a deixar para trás duas décadas de regime militar e buscava recuperar o direito de escolher seus governantes.
A volta do voto direto para governador
Para compreender a importância da eleição de 1982, é preciso voltar alguns anos na história brasileira.
Depois do golpe militar de 1964, o sistema político passou por profundas transformações. Em 1966, o Ato Institucional nº 2 extinguiu os partidos existentes, e o país passou a funcionar, na prática, com duas grandes legendas: a Arena, ligada ao governo militar, e o MDB, que reunia a oposição permitida pelo regime.
Em Santa Catarina, como em outros estados, os governadores deixaram de ser escolhidos diretamente pela população durante aquele período.
A eleição de 1982 representou, portanto, uma oportunidade histórica. Embora o país ainda estivesse sob um governo militar, os eleitores voltavam a participar diretamente da escolha do chefe do Executivo estadual.
A disputa aconteceu em um momento de abertura política, crescimento das mobilizações democráticas e fortalecimento das forças de oposição.
A vitória de Amin manteve o grupo político ligado ao governo estadual, enquanto o desempenho de Jaison demonstrou a força eleitoral da oposição catarinense.
Dois candidatos, dois projetos políticos
Esperidião Amin: experiência administrativa e força política
Natural de Florianópolis, Esperidião Amin já possuía experiência na vida pública. Havia sido prefeito da capital catarinense entre 1975 e 1978 e, posteriormente, deputado federal.
Sua passagem pela prefeitura contribuiu para torná-lo conhecido do eleitorado, especialmente na Grande Florianópolis. Durante a campanha de 1982, sua candidatura contou com a estrutura política do PDS e com o apoio de lideranças importantes do Estado.
Amin tinha como candidato a vice-governador Victor Fontana, ligado ao setor empresarial catarinense.
Jaison Barreto: a força da oposição
Natural de Laguna, Jaison Tupy Barreto era médico e político com trajetória consolidada na oposição ao regime militar.
Participou do grupo conhecido como “autênticos do MDB”, que defendia posições mais firmes contra o autoritarismo. Foi deputado federal e, em 1978, conquistou uma vaga no Senado por Santa Catarina.
Em 1982, tornou-se o principal nome do PMDB na disputa pelo governo estadual. Sua candidatura reuniu setores que desejavam ampliar a participação democrática e encerrar o ciclo de predominância política associado ao regime militar.
O candidato a vice-governador em sua chapa foi João Cândido Linhares.
A escolha de Jaison não ocorreu sem disputas internas. Em fevereiro de 1982, uma pré-convenção do PMDB definiu a candidatura, com vitória de Jaison sobre Pedro Ivo Campos, representante de uma ala mais conservadora do partido. Pedro Ivo acabou disputando a eleição para o Senado.
Esse episódio mostra que a campanha foi precedida por intensas negociações dentro das próprias forças políticas.
Os números de uma eleição histórica
A apuração confirmou a vitória de Esperidião Amin, mas a diferença entre os dois principais candidatos foi mínima diante do tamanho do eleitorado.
Resultado para governador de Santa Catarina em 1982:
- Esperidião Amin (PDS): 838.150 votos.
- Jaison Barreto (PMDB): 825.500 votos.
- Eurides Luiz Mescolotto (PT): 6.803 votos.
- Lígia Doutel de Andrade (PDT): 4.572 votos.
- Osmar Cunha (PTB): 2.281 votos.
A diferença entre Amin e Jaison foi de 12.650 votos.
Os números oficiais do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina registram 1.677.306 votos distribuídos entre os candidatos ao governo. Nesse total, Amin obteve aproximadamente 49,97% e Jaison, 49,21%, conforme a base de cálculo apresentada para os votos destinados aos candidatos.
A disputa não teve segundo turno. Naquele modelo eleitoral, a escolha para governador era decidida em turno único, e o candidato mais votado era eleito.
Bastidores: a força das alianças e da estrutura de campanha
A eleição de 1982 também se tornou objeto de estudos acadêmicos sobre o poder político e econômico em Santa Catarina.
Em sua dissertação de mestrado, defendida em 1991 na Universidade Federal de Santa Catarina, o pesquisador Itamar Aguiar examinou as estratégias utilizadas pelas elites políticas e empresariais durante a disputa.
O estudo analisou a articulação entre lideranças empresariais, grupos políticos e setores da comunicação, além das condições desiguais enfrentadas pelas candidaturas em um período de transição democrática.
A pesquisa também investigou a atuação do governo estadual e a cobertura dos meios de comunicação, levantando questões sobre a influência desses fatores no resultado eleitoral.
Esses aspectos fazem parte de uma discussão histórica importante: até que ponto a estrutura política existente favorecia a candidatura apoiada pelo grupo que estava no poder?
Reportagens e análises publicadas posteriormente também registraram acusações de uso da máquina pública e de favorecimento político à candidatura de Amin. Essas denúncias fizeram parte da controvérsia em torno da eleição, mas precisam ser diferenciadas dos resultados oficiais proclamados pela Justiça Eleitoral.
O fato comprovado é que a disputa terminou com uma margem muito pequena e que seus bastidores continuaram sendo objeto de pesquisa e debate nos anos seguintes.
Uma campanha em que cada região fazia diferença
Em uma eleição tão equilibrada, os resultados municipais ganharam importância especial.
Amin e Jaison possuíam bases eleitorais, alianças e redes de apoio distintas. A capacidade de percorrer o Estado, mobilizar lideranças locais e manter uma presença constante nos municípios era decisiva.
Um relato publicado pelo ex-integrante do governo Paulo Gouvêa, anos depois, destacou a intensidade da agenda de campanha de Amin. Segundo a lembrança relatada, Jaison reconhecia que o adversário conseguia visitar várias cidades em um ritmo extraordinário, chegando a iniciar sua jornada antes mesmo de outros candidatos começarem o dia.
O episódio ajuda a ilustrar uma característica fundamental das campanhas daquela época: a presença física dos candidatos era indispensável.
Não havia redes sociais, transmissões instantâneas pela internet ou campanhas digitais. Comícios, reuniões partidárias, visitas a comunidades, entrevistas em emissoras de rádio e televisão e articulações com lideranças locais ocupavam o centro da estratégia eleitoral.
O contato direto com os eleitores podia influenciar o resultado de uma disputa em que poucos milhares de votos separavam a vitória da derrota.
O suspense da apuração e a disputa pelo Senado
A eleição de 1982 ficou marcada também pela disputa acirrada para o Senado.
Jorge Konder Bornhausen, do PDS, enfrentou Pedro Ivo Campos, do PMDB, em uma votação igualmente apertada.
Bornhausen obteve 816.386 votos, contra 814.947 de Pedro Ivo. A diferença foi de apenas 1.439 votos.
Relatos da época descrevem uma apuração acompanhada com enorme expectativa pelas lideranças políticas. Joinville era uma importante base eleitoral de Pedro Ivo, enquanto municípios do Sul catarinense tinham peso relevante para o campo político de Bornhausen.
O resultado para o Senado reforçou a imagem de uma eleição em que o Estado estava dividido entre duas grandes forças.
A distribuição das cadeiras legislativas também refletiu esse equilíbrio. Na Câmara dos Deputados, PDS e PMDB elegeram oito representantes cada um. Na Assembleia Legislativa, o PDS conquistou 21 cadeiras e o PMDB, 19.
Os resultados demonstraram que a polarização entre os dois partidos continuava muito forte, apesar da reorganização partidária iniciada no final da década de 1970.
Jaison Barreto e as controvérsias sobre Laguna
Um dos episódios mais delicados relacionados à eleição foi lembrado pelo próprio Jaison Barreto em entrevista concedida à Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 2013.
Ao comentar sua derrota, o ex-senador fez referência a problemas envolvendo urnas de Laguna, sua cidade natal, e levantou suspeitas sobre a atuação de agentes ligados ao regime militar. Suas declarações expressavam a interpretação que manteve sobre os acontecimentos daquele pleito.
É importante registrar que essas afirmações fazem parte do testemunho pessoal de Jaison e das controvérsias históricas em torno da eleição. Não devem ser apresentadas, isoladamente, como prova conclusiva de fraude eleitoral.
O episódio, contudo, mostra como a derrota por uma margem tão pequena permaneceu viva na memória do candidato e de seus apoiadores.
Décadas depois, a eleição ainda desperta interesse entre pesquisadores, jornalistas e pessoas que acompanharam a política catarinense daquele período.
A vitória de Amin e o início de um novo governo
Com o resultado confirmado, Esperidião Amin assumiu o governo de Santa Catarina em 1983, iniciando um mandato que se estendeu até 1987.
Sua administração ficou marcada, entre outros acontecimentos, pelas grandes enchentes que atingiram o Vale do Itajaí em 1983 e 1984. A atuação do governo durante as calamidades ampliou a exposição pública do governador e passou a fazer parte da memória política de seu primeiro mandato.
Amin voltaria a ocupar posições de destaque na política estadual e nacional, incluindo a prefeitura de Florianópolis e o Senado Federal.
Jaison Barreto, por sua vez, continuou atuando na política depois da eleição. Posteriormente, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), manteve influência nos debates públicos e permaneceu associado à trajetória da oposição democrática em Santa Catarina. Ele morreu em 2021, aos 88 anos.
Curiosidades sobre a eleição de 1982
1. Foram 17 anos sem eleição direta para governador. A votação de 1982 representou uma retomada importante da participação popular na escolha do chefe do Executivo estadual.
2. A diferença foi de apenas 12.650 votos. Em um eleitorado de grande dimensão, esse número foi suficiente para separar os dois principais candidatos.
3. Não houve segundo turno. A eleição foi decidida em turno único.
4. O Senado teve uma disputa ainda mais apertada. Jorge Bornhausen venceu Pedro Ivo Campos por apenas 1.439 votos.
5. Os dois principais partidos dominaram a representação política. PDS e PMDB dividiram as 16 vagas catarinenses na Câmara dos Deputados, com oito representantes para cada legenda.
6. A eleição virou tema de pesquisa acadêmica. A dissertação de Itamar Aguiar, defendida na UFSC em 1991, investigou as estratégias políticas, empresariais e de comunicação presentes na campanha.
7. A campanha dependia muito da presença física. Viagens pelo Estado, comícios, rádio, televisão e alianças com lideranças municipais tinham papel central, muito diferente das campanhas digitais de hoje.
Uma eleição que ajuda a entender Santa Catarina
A disputa de 1982 foi mais do que uma vitória eleitoral apertada. Ela refletiu um momento de transição política, no qual o país tentava reconstruir suas instituições democráticas e os partidos disputavam espaço em um cenário ainda marcado pela influência do regime militar.
A vitória de Esperidião Amin demonstrou a força da estrutura política do PDS. O desempenho de Jaison Barreto, por sua vez, revelou a capacidade de mobilização da oposição e a existência de um eleitorado dividido quase ao meio entre os dois principais candidatos.
Os bastidores, as acusações, as alianças empresariais, as estratégias de comunicação e a apuração apertada fizeram com que aquele pleito permanecesse na memória política do Estado.
Mais de quatro décadas depois, os números continuam impressionantes. Em 15 de novembro de 1982, pouco mais de 12 mil votos decidiram quem governaria Santa Catarina pelos quatro anos seguintes.
É por isso que essa eleição permanece como um capítulo fundamental para compreender a história política catarinense e a retomada do voto direto para governador no Brasil.
Fonte colunista portaljaguaruna: